8 de setembro de 2014

rascunho.

ser mãe é solitário.

quebrando a cara .
o coração em frangalhos, impede a concentração.
não há fome, não há riso.

só um buraco no peito. e sede.
sede, que me secaram por dentro .
estou seca.
preciso de água, preciso das lágrimas e do gritos.
mas não tenho forças. não quero gritar , não quero gritar .

eu só quero sentir .
deixei de sentir o joão.
deixei de sentir a felicidade imensa que me preenchia e bastava.
agora eu só consigo temer .
e pensar em como será quando ele chegar .

se estarei pronta.
e enfim as lágrimas chegam .
e me inundam por fora.
por dentro contínua seco e sem vida .
a única exceção é joão, que cresce .
mais por vontade própria do que por esforço meu .


setembro.

setembro.
é sempre um mês doloroso, um mês que deixa marcas.
na idade, no rosto, no corpo.

agora, somos dois.
agora dói por dois.
agora pesa mais .

agora, a barriga aumentou, os seios, os medos também.
e o agora não me pertence mais .

setembro.
meu primeiro aniversário como mãe.
e ser mãe dói.

sinto o peso do mundo,

assim como uma rosa sem espinhos .
incapaz de escapar .
incapaz de continuar.

23 de novembro de 2013

Egoísta

não gosto quando as pessoas me definem por meus gostos , me conhecem me chamam por eles .
'garotas nerdsrockeirasgeeksindiehippiepop'

eu gosto do que gosto , porque gosto , e o que gosto não define quem sou , eu posso gostar e amanhã desgostar .
e quando desgostar cês vão me chamar do quê ?

aquilo que li , que aprendi e que me levou a gostar de outras coisas , ainda vai estar ali . digo , aqui . ainda vai ser parte integrante daquilo que ainda não descobri .
ah , vocês . vocês com essa necessidade de rotulação . vocês precisam rotular .
vocês precisam ME rotular .

é . talvez seja isso mesmo que me incomoda . o eu .
alguém me disse uma vez que o ser humano é sempre egoísta , eu claro protestei , afinal quem mais engajado do que eu e todo meu círculo de amizades , em fazer o bem , em conscientizar-nos e conscientizar o povão de seus direitos , e quem mais feminista , quem mais politizada do que eu ?

Ah , e como é que são capazes de indagar-me sobre egoísmo . quase uma heresia . eu sempre tão altruísta , sempre tão bobocamente preocupada com os outros , com o todo , antes de mim .

mas essa epifania de rótulos me fez entender outra coisa , é . uma coisa que sempre leva a outra . 
ai , essa coisa de continuidade nunca foi comigo . 

não terminei a faculdade , o francês , parei a academia , o inglês , comecei tudo de novo , psicologia , história , literatura , cinema , fotografia , astrologia . 
tudo , tudo , assim . inacabado . 
assim como eu . inacabado . 

mas o que eu ia dizendo é que o que me incomoda tanto nessa rotulação excessiva , é a porra do meu egoísmo . Porque como eu disse , eu tentei negar , discordar , eu esperneei , quebrei copos ,chorei . mas é a verdade . talvez não uma verdade absoluta , mas ainda verdade .
eu .
o eu que toma conta do que eu sinto , do que escrevo , do que vivo , o eu que é só o que me interessa . 
é só o que me interessa e que me move , e que me importa .

isso de rótulos , que passou por continuidade , ou melhor pela falta de , que terminou na negação da minha afirmação de não ser egoísta .
será que é isso ?
será que é isso mesmo ?

depois de escrever tudo num sobressalto , eu paro . e espero entender amanhã . espero que entenda .
ou não .

putamente egosísta .

8 de junho de 2013

O abismo como imã .



eu tento andar na calçada , atravessar na faixa de pedestres, olhar para os dois lados da rua .
comer arroz integral, me exercitar com todos equipamentos de segurança possível .

mas ainda assim caio de barrancos e despenco de telhados .
de uma mesma forma eu tendo ao caos .
o abismo me puxando como imã .

nada pode parar esse engrenagem construída há milhões de anos .
andar contra o vento , sair da trilha , ter sua própria opinião e fazer dela sua verdade .
a pedra angular que define quem você é . o que você quer ser .
você constrói essa pedra , e a finca no chão , um terreno firme, sólido .
e ventos , ventanias, músicas ruins , chuvas e mágoas e magoados a circundam.

mas não importa ,você pode não construir nada , não ir muito além .
a pedra angular ainda estará ali . VOCÊ ainda estará ali , da mesma forma de antes , tendendo aos vícios e ao abismo .
machucando o joelho . o coração . chorando baixo , ouvindo Elliott Smith . você ainda será você mesmo longe . mesmo de longe .


já não sinto saudade daquilo que me fez eu .
nem da auto-afirmação .
eu sinto falta de um pedaço sem nome . sem dono , sem corpo .

30 de maio de 2013

Auto- retrato aos 21 anos

nasceu em mil novecentos e noventa e um  na capital paulista .
solteira , sem filhos , cheia de vícios .
a altura é indiferente . o peso , os quilos : tenta não pensar .

andaria por quilômetros sem fim se soubesse o que iria encontrar .
como não sabe, não anda . espera .

não gosta de  n i n g u é m , como um      n a r c i s o    i n v e r t i do    ; nas horas vagas misantropa .

fala alto, e como diria Caio F. : 'Um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Tereza de Calcutá'

Usa óculos e tem todas as imperfeições possíveis .
não largaria seus erros à perfeição .

come demais , não gosta de café ou chocolate .
e   não   trocaria   um   sorvete   de   flocos   por   você . ou por ninguém .

vive a música . sua vida tem trilha sonora, onde as velhas canções nunca ouvidas insistem em tocar .

os russos a fascinam .   tem inveja de   D o s t o i é v s k i    e queria um dia de    R a s k ó l n i k o v    .
 um algoz , uma vítima .

escreve demais , expõe demais sua vida, e até acredita que alguém lhe espera na (Fila do pão) .
lê demais , bebe demais , pensa demais , erra demais .

é apartidária . odeia expressões como 'movimento' e 'cena', acha que o ser social é solitário ou deveria ser .

mau-humorada, incrédula . crente .
crente na vida e 'na sorte de um amor tranquilo com gosto de fruta mordida' .

a coerência é tudo aquilo que não possui . o que não tem nome é tudo aquilo que espera . 

sem acasos , sem clichês , sem toda aquela felicidade de comercial de margarina .

prefere um domingo cinza , um dia frio, um chá quente na cama , um romance russo e Fiona Apple tocando na vitrola .

então o que não foi , não precisa mais ser . 



dezoito de outubro de dos mil e doze

.

não seria eu .

como uma metralhadora de lamentações , eu me despejo , eu me desmancho
o rosto negro, o rímel borrado .
arte abstrata .

'se não fossem os danos , não seria eu .
se não desse errado, não seria eu . '

se não fosse essa tarde cinza, esse dia chuvoso , o Amarante cantando baixinho ; não seria eu .




10 de abril de 2013

O importante não é o problema , e sim a resolução .


eu sinto que ainda não cresci o que tinha de crescer .
e sinto falta de um monte de coisas que nunca sonhei em viver .
e sinto uma necessidade imensa de fazer sentido .
mas é bom . quase parar de respirar , sem fazer sentido algum .

e enquanto você dorme , eu penso em tudo que vivi , e penso que nada mais faz sentido nenhum sem voce comigo .
e isso é o que mais me dá medo .
por que se for isso mesmo , quer dizer .
eu ainda talvez não saiba o que quer dizer .
mas pressinto que é algo grande . e bom . bom , não para mim .

eu sinto frio . e falta . mas não sei dizer do que .
eu eu andei e andei e andei hoje , pensando no que eu quero .
e eu cheguei a terrível conclusão : que quero o que não tenho .

e só sei o que não quero .

e eu não quero isso .
isso que vivemos .

e nem me importo se vc vai entender . porque isso . ah, isso faz todo sentido pra mim .
e eu sei , que já senti falta das dores antigas , e dos céus cobertos de estrelas de plástico , e de barrancos e telhados .
mas se ainda assim sinto falta de tudo isso , ah , se eu sinto falta , é .
você pode entender , sem que eu termine a frase ?

e eu tomei meia cartela de anti-depressivos e vodca , meia cartela , porque eu não sou inteira . nunca fui completa .
nunca vivi o pleno , então não posso . não consigo , meu corpo não permite . não aceita nada mais que
meia . meia cartela . meio amor . meio copo de gin . meio .

por que eu sou um copo .
meio cheio , meio vazio . um passaporte individual .
porque me deram um nome e me alienaram de mim .
eu sou o que ninguém nunca vai ler .
eu sou o que nunca serei .