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2 de outubro de 2012

migalhas


'hesito antes de escrever nesta merda aqui porque acabou o tesão. a partir do momento que esperam que você faça algo, tudo empedra e o tesão se esvai. é uma pena. mas é assim mesmo. '



eu queria mesmo escrever um romance . mas não tenho enredo , eu penso fragmentadamente e gosto disso .
gosto de não ser inteira , não ter continuidade , de ser aos poucos . ou tudo de uma vez , uma história imensa, um textos cheio de palavras , que não dizem absolutamente nada . 

Eu escrevo e não espero nada em troca . compreensão , talvez .

eu espero o cara entrar na minha vida e revoluciona-la , mas eu espero sentada . sentada no bar , rindo com os mesmos amigos , não olho pro lado , não quero ver , conhecer .

sei que em algum momento eu vou ter de levantar , olhar pro lado , conhecer gente nova ; deixar a minha confortável poltrona e meu livro e meus discos e atender a porta , prum bosta qualquer entrar e bagunçar tudo .  eu sei .

e não adianta dizer que agora vai ser diferente , que existe aquela coisa de pessoa certa , aquele lance de felicidade eterna . eu não acredito mais nisso

eu não acredito . 

é, eu sei . eu já abri a porta . ele entrou saiu , e agora só fica me olhando pela janela . fecho as cortinas pra não ver  . 


deixei a  sala bagunçada , me perdi nos textos antigos , nos diários de mocinha , me perdi num disco novo . 

sem telefone , sem contato visual , eu quero tudo de volta . eu quero as palavras ditas, os beijos , eu quero toda minha inconstância , aqui . 
Tragam já , tudo o que eu perdi , todas as migalhas que eu espalhei por aí , eu quero agora .

sinto que não posso perder mais nada . nem um pedaço , ou espatifarei no chão , fadada a ... ao que nem mesmo posso completar . 


eu só sei que não posso dar nada em troca . eu só sei que não tenho mais nada pra dar . 

eu disse que quero que o moço entre e revolucione minha vida , meu mundo , destrua-o , teça-o novamente , mas não . se ele chegar , bater na porta, se eu o permitir . não vou lhe dar nada em troca . acabou . 

eu acabei . eu sei , eu sei , disse agora mesmo aquilo sobre ser aos poucos, mas o meu pouco esgotou-se . 

eu esgotei . e eu sei exatamente o que significa . trancafiar-me em casa , naquela já conhecida misantropia .

não esperar , esperar sem esperar , fingir . não pros outros que nem isso eu tenho, essa capacidade de fingir .

fingir pra mim . mas nem isso me restou . é só .


vazia . sem enredo , sem romance , com uma dor imensa no peito , uma ansiedade , que nem todos os meus ansiolíticos curarão .

tudo misturado com o cheiro de gin , com lembranças embaçadas , com sentimentos ruins , com os sorrisos que vocês não conseguem arrancar de mim . 


mas ele sim . 

sem sorrisos , nem mesmo esperando o acaso 'Loshermanístico' , eu .
que já não tenho nada , além de palavras desconexas , de um espaço vazio esperando , esperando , esperando . 





Well I'm so above you and it's plain to see
But I came to love you in a way
So you pull my heart out, and I don't mind bleeding
Any of the time you keep me waiting, waiting, waiting


Oh oh oh I got a love that keeps me waiting
Oh oh oh I got a love that keeps me waiting
I'm a lonely boy
I'm a lonely boy
Oh oh oh I got a love that keeps me waiting


4 de junho de 2012

doze andares e o vizinho

doze andares , desço correndo .
é muito , é demais , é impossível .
a vida e suas impossibilidades, sempre repito , repito , repito . esqueço .

não vai adiantar fugir , a sanidade não volta tão cedo .
deixe-a ir . repito . repito , repito , sento na escada .
medo de subir . medo de cair . medo de ficar .

apartamento novo , marca de aliança no dedo
solidão . a solidão enfim  conquistada, longe de casa , da familia , dos amores, dos problemas .

abro a janela agora ,
fecho os olhos .

não , não consigo , não consigo escrever , criar enredos , criar cenas, continuar a fazer sentido por mais de três parágrafos .

eu subi as escadas lentamente e repito , repito que isso é passageiro .
que a impossibilidade enfim chegou ao fim .

é . é ele .
no meu andar .
ao lado do meu apartamento .

eu preciso ser forte .
pra manter a calma .
perceber que vai além do que eu consigo ver .

ele será meu vizinho .

30 de junho de 2011

Eu repito, eu insisto.

A tela azul

. o fone toca, as vozes alternado-se entre sarcasmo e alteração. ( HÁ ENTENDIMENTO? )

. o papel branco, colado na tela, informando o horário de brincar.



Eu finjo que esqueço, mas as vozes conhecidas, tão conhecidas, amigas (?) insistem em me lembrar.

Tenho medo de quebrar cadeiras, mesas, unhas, pescoços. Tenho nojo, asco. As cenas insistem em se repetir na minha cabeça.


O papel amarelo, os dedos amarelos.



. penso na possibilidade da verdade. penso nas unhas quebradas, no trem passando. no quarto vazio. na sua mão na minha.


A tinta preta insiste em falhar
e por algum motivo eu repito
sem parar eu repito
insisto.


e insisto em não parar. em repetir
eu crio cenas, eu moldo sensações.
eu censuro lembranças
eu condeno beijos.
eu cometo erros.


. eu viro a folha, e nada vejo. eu minto , o que eu vejo?
eu vejo. o fim
eu temo. eu tremo. o trem passa, e eu me lembro.